ENTREVISTA DO GRUPO VIDA & MORTE: LAÇOS DE EXISTÊNCIA
Aluna:
ANA LUIZA LACERDA DA SILVA
Estudos Sobre a Morte e Como o Ser
Humano Lida Com Ela Ao Longo da Vida.
Entrevista realizada com professora do ensino infantil da prefeitura de São Paulo
Qual o seu contato com a morte no âmbito pessoal? Fale um pouco sobre
isso.
Bom, costumo falar que não tenho
muito contato com a morte por que quase não morrem pessoas próximas a mim.
(silencio) Familiares ou amigos, mas também já estou preparada e tentando me
preparar para quando começar que a gente sabe que... Vai próximo um ao outro,
mas é... Há dezesseis anos um é... Compadre o padrinho da minha filha mais
velha, que agora vai fazer vinte anos, há dezesseis anos ele faleceu
inesperadamente então ele só tinha trinta e dois anos e foi de repente e foi um
sofrimento muito grande pra mim. Foi muito difícil aquela época porque já
naquela época eu não tinha muito contato com morte, como eu falei, poucos
faleciam e eram parentes longe só distantes de mim e... Naquela época quando o
meu compadre faleceu, foi muito difícil.
Como foi acompanhar este processo, sua filha era muito ligada a ele?
Ela só tinha dois para três anos.
Então a ligação era mais forte com você?
Era mais comigo porque a esposa dele,
a comadre, né? É até hoje minha amiga então não era parente também, né ? Era
amiga de infância crescemos juntas por conta de escola. Quando ela casou, eu
casei próximo no mesmo ano, ela casou em janeiro e eu em abril então tivemos muitas
coisas próximas, né? E... Eu batizei o filho dela e ela batizou a minha filha
então a gente tinha e tem ainda muita ligação e quando ele faleceu foi muito
difícil para todo mundo.
Você tem religião?
Eu sou católica por batizado, né? Por
família. E a partir da época que esse compadre faleceu muitas coisas
aconteceram e além de católica eu costumo dizer que sou espírita. Espírita de
Allan Kardec.
E a religião te ajudou nesses momentos de crise?
Sim ajudou. O Catolicismo nem tanto,
catolicismo é por família, por educação, mas a religião que nem é considerada
religião, né? A doutrina espírita me ajudou muito a entender, aceitar e a
compreender que cada um tem o seu tempo e que eu acredito que não acaba nunca,
não acaba ali não ... Ali é uma das etapas da nossa alma do nosso espírito, mas
eu aprendi com a morte dele que até então não tinha necessidade não tinha sido
provocado pensar nesse aspecto nesse assunto.
E o rito de passagem como foi, teve velório?
Teve.(silêncio)
Dentro do rito da igreja católica?
Isso...Como o catolicismo manda. Por
que a família dele sempre foi católica, né? E a família da minha comadre
espírita, mas foi tudo no catolicismo.O
casamento, o batismo dos filhos e... O ritual fúnebre também, né? Velório,
enterro dentro do catolicismo.
Qual o seu contato com a morte no âmbito profissional? Gostaria que você
falasse um pouco sobre isso também.
Agente tem a cada ano uma turma, né?
E só uma vez que eu tive é... Uma vez há uns seis anos ou sete anos atrás mais
ou menos. Eu na educação infantil de crianças de cinco anos. E um aluno saiu de
férias, de férias no mês de maio mais ou menos por que eram férias dos pais e
eu lembro que os pais vieram me comunicar a ausência do meu aluno de um mês
mais ou menos por que eles iriam viajar pro nordeste e iam apresentar o filho
deles pros avós paternos por que só os avós maternos conheciam e nisso sofreu
acidente de carro e faleceu. Os pais não, os pais sobreviveram com muita
dificuldade, à mãe quase morreu ficou internada vários meses teve que vir de
ambulância... Não lembro se de ambulância ou se avião de lá do nordeste pra cá
o pai sofreu pouco e o menino morreu no local, meu aluno.
E a reação das crianças como que foi?
Muito difícil... Nunca eu tinha
passado por isso as crianças não entendiam (chora)...
Perguntavam por ele?
Perguntavam por ele e eu tinha que
explicar... Tinha que explicar as crianças e elas não podiam esperar o menino
sem voltar e eles sem saberem. E essas coisas vão de boca em boca de mãe em mãe
e na verdade as crianças já sabiam né? Pelas vizinhas, pelas mães, né? Mas eu
tinha que fazer o meu papel de oficialmente um aluno da sala não comparecer
mais, foi muito difícil...
Foi muito difícil de continuar sem ele?
...De continuar sem ele. De continuar
vendo o material dele que ficou á no meu armário, continuar vendo o nome dele
na lista no diário, né?
Depois que a mãe se recuperou ela foi
até a escola falar comigo foi pegar os caderninhos dele o estojo dele pegar
todo o material que ele havia feito né? E... Enquanto eu não entreguei tudo pra
mãe e... E ainda por alguns meses tive notícia dela de como a família estava
reagindo. Enquanto isso não... É foi um velório também eterno demorou vários
meses para isso e até hoje dói muito lembrar.
E você teve que engolir esta dor para continuar por que você era a força
motriz da sala?
É... Tinha que ser, né? O Centro, não
adianta, professor é assim. Professor é o alicerce da sala, da turma, é o que
responde e mesmo que não fosse é de mim isso. Ficar responsável por ele.
Você já tinha esta compreensão do espiritismo?
Já e isso que ajudou Muito também,
né? Coloquei pra mim que ele era um anjinho que veio fez o papel dele e que
está em determinado lugar acredito eu... Pra me acalmar um pouquinho também,
né? E coloquei pras crianças que onde ele estivesse ele estaria cuidando dos
amiguinhos... Tentei acalmar assim por que achei a melhor maneira.
As colegas profissionais colaboraram
como amigas não como profissionais. Eu tive apoio das amigas hoje eu falo
muito, por que eu fiquei dezoito anos nessa escola então as profissionais que
estavam lá e estavam lá até hoje viram eu engravidar viram minhas filhas
nascerem eu via filha delas nascerem, né? Então é um acompanhamento muito
amigável. Lá eu tive nessa hora também muito apoio nesse sentido. Apoio das
amigas profissionais que entendiam o que eu estava passando e tentavam
compartilhar comigo esta dor.
Como elas compartilhavam profissionalmente e como amigas?
Se oferecendo para quando eu tivesse
depressiva, quisesse sair um pouco da sala elas ficavam olhando os meus alunos
por mim, por que a gente não pode abandonar nem um minuto, né? Nós somos
realmente as galinhas com os pintinhos então você não abandona não por que se
não vem uma raposa e... No sentido de cair se machucar entre eles mesmos
qualquer coisa assim. Então elas sempre estavam do lado “Você precisa sair um
pouquinho? Respirar um pouquinho? Dá uma andada, tomar uma água? Qualquer coisa
assim só é chamar que agente compartilha ou até pra conversar”.
Você o considerava um bom aluno?
Era um bom aluno. O nome dele era
Gabriel e tinha dois Gabrieis na sala, né? Então pra chamar o outro Gabriel a
gente sempre se lembrava dele também e como foi na metade do ano mais ou menos
foi o resto do ano assim. Acredito que se fosse pelo menos em outubro ou
setembro, né? Seriam menos meses de sofrimento talvez por que o ambiente te
lembra tudo, né? E foi bem na época do Hot Wheels. Tenho duas meninas então não
entendo muito bem de brinquedo de menino, mas na época era uma febre o Hot
Wheels, aqueles carrinhos, e ele, tudo dele era hot Wheels, o estojo, o
caderno, a roupa dele e ele viviam falando do Hot wheels.
Essa morte na escola foi comentada ou teve que ser silenciada de alguma
forma para tentar continuar?
Não, foi comentada o quanto todo
mundo quis. O quanto todo mundo precisou foi respeitado isso. Tanto eu quanto
as colegas, direção da escola, a mãe enquanto precisou foi lá. Depois de um
ano, mais ou menos, eu soube, a mãe já
não vinha mais falar comigo por que já tinha passado um ano , né? Agente já
perde o contato, mas eu soube que a mãe engravidou de novo e de um menino.
Depois de um ano mais ou menos a mãe já estava grávida e de um menino, não sei
como é que está. Como eu falei há uns sete ou oito anos atrás, então já deve
está lá na escola de novo o irmãozinho dele, se Deus quiser. Mas eu perdi o
contato não tenho noticia da família não.
Gostaria que você falasse um pouco sobre vida, o que é vida pra você?
É. É complicado, né? Por que vida eu
acho que é vivenciar tudo que você está disposto a vivenciar, é tudo que você
se propõe a fazer, isso eu acho que é vida. E não é sozinho é sempre
compartilhado com alguém talvez esse seja um dos meus defeitos até, né? Por que
eu não sei viver sozinha não é uma vida sozinha, mas viver é compartilhar é
cuidar é dividir, crescer e desafiar é ser desafiada é chorar é rir, tudo isso
eu acho que é vida
E o que é morte para você?
Morte é só uma passagem hoje em dia
eu vejo pra mim já é isso, morte pra mim é só uma passagem “dessa pra outra”
que é como dizem por ai (sorri), mas que tem continuação tem outra vida acho
que a vida não acaba aqui. O espiritismo fala isso claramente, né? A vida não
acaba aqui a alma é a sua vida. Você continua a viver depois da tal morte, do
tal desencarne né? Eu acredito muito nisso hoje em dia, depois de dezesseis
anos foi o que eu aprendi. Morte é só uma passagem daqui para outro momento
outro estágio, e que a gente não vê mai quem a gente ama da maneira que a gente
via né? De outro olhar, outro lugar e conforme é permitido, eu acredito assim.
Não sei se eu vou continuar acreditando quando eu perder alguém que eu amo
muito, eu não sei como é que vai ser. Já me policiei muito em tentar pensar
como eu vou reagir, Deus nos livre, quando minha mãe ou meu pai, uma Irmã ou
Deus me livre, de uma filha morrer... Não sei, mas não quero pensar nisso agora
não, mas hoje em dia penso que porte é só uma passagem, mas não sei se eu vou
saber lidar com ela, não quando eu morrer e sim quando eu perder alguém que
morreu. Eu morrer não tenho medo não isso pra mim realmente é fácil. Tem gente
que tem “Paúra” né?Não gosta nem de
pensar. “Ai de morre Deus me livre”, não! Não tenho, mas perder alguém que eu
amo isso dói muito, que e uma morte também, né?
O que te comoveu na hora que você falou do menino, a dor da perda?
Eu acho que é né?...(chora)... Eu
acho que é não sei, toda vez que eu me lembro dele me emociono até quando falo
lá com a terapeuta ou quando alguém pergunta alguma coisa que chega esse
assunto. É lembrar dele e eu me emociono, eu não sei por que não sei se foi um
bloqueio ou não resolvi do jeito que eu deveria ter resolvido na época, mas eu
acho que não foi tudo muito bem resolvido... Ou foi muito inesperado, né? De
repente uma morte também trágica, né? Eles contaram detalhes. O carro bateu de
frente com o caminhão numa daquelas estradas que vai pro nordeste que eu não
conheço, mas que é perigosa, então disse que foi muito sofrido. O pai contou na
época que ele tinha que escolher de tentar tirar a mãe e o filho das ferragens
do carro tentar socorrer um ou outro e como o filho estava com o sinto de
segurança ele tentou socorrer primeiro a esposa e depois tirou o filho quando
tirou o filho, já estava agonizando pra morrer morreu ali mesmo, então o que eu
sei da história é essa. Então já imagino a cena, aquele menininho bem frágil,
pequenininho a penas cinco anos, com tudo isso todo esse sofrimento. Eu imagino
tudo isso na época foi bem difícil imaginar isso dele que eu gostava tanto,
dele e qualquer outro aluno que fosse eu me apego muito a criança como se fosse
filho e defendo como se fosse filho também então talvez tenha sido um filho , né? Que faleceu
então me emociono muito, lembrar é difícil.
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