ALLELUIAU
ANO 1 Nº5 Outubro /2001 Informativo Ecumênico
do .Serviço Religioso do Hospital das Clínicas da FMUSP
E AGORA, DOUTOR?
Perdão, Doralice. Na verdade, eu estava cego.
Preocupado com os males do corpo, esqueci seu espírito, ainda mais doente. Como
pude descuidar-me da alma se, naquele dia, quando você se obstinava contra seus
pais, traía seu sofrimento? É o eterno engano dos cirurgiões, que palpam
tumores, e não se lembram de que há um coração oculto vibrando em ânsia, sonhos
e sofrimentos.
Você tentou suicidar-se bebendo soda cáustica.
Era o que tinha à mão na modesta cozinha onde sua mãe passava os dias. Fiquei
imaginando que problemas tão graves a levaram, aos 16 anos, a desistir da vida.
Que choques emocionais, conflitos de sentimentos, teriam ferido tão
profundamente o cerne de sua própria existência, ainda tênue e indefinida?
Por que você não respondia aos insistentes
apelos de sua mãe? Por que? Procuraria saber, quando não houvesse mais perigo, e
você estivesse livre das dores físicas. Fosse qual fosse o motivo, não seria tão
grave assim. Você, chegando à idade adulta, veria como é banal e sem importância
o que parece grave e assustador na juventude.
No momento, precisava salvar-lhe a vida. Você
tinha a boca, o esôfago e, certamente, o estômago queimados. Não conseguia
engolir, babava. Era preciso fazer outra boca no abdome. Você não teria mais
paladar, não conheceria o sabor dos pratos, não poderia beber água quando
tivesse sede. Os alimentos seriam jogados diretamente no estômago.
Sob o efeito do anestésico, você dormia
serenamente. Lembro-me de que parei alguns instantes, o bisturi esquecido na
mão, a contemplar seu corpo jovem, tão belo, e senti remorso, como vândalo a
desfigurar suas formas perfeitas. Um traço de sangue riscou seu ventre. O
estômago estava queimado e retraído. A princípio, pensei em alargar o estômago.
Passaria um fio pelo nariz, que seria apanhado através da abertura do estômago.
Amarraria sondas cada vez mais grossas até dilatá-lo completamente.
Esperança vã. O esôfago estava fechado. Teria
de retirá-lo e substituí-lo por um pedaço de intestino. Uma ponta seria
costurada na boca e a outra no estômago.
Operação grave. Deveria abrir o pescoço, o
tórax e o abdome. Era preciso retirar uma costela. O pedaço de intestino iria
passar por trás do coração. Você necessitava estar bem preparada: corrigir a
anemia e esterilizar os intestinos, destruindo os micróbios.
Luta árdua, de seis horas. Quatro cirurgiões,
dois litros de sangue, vários litros de soro. Tubos grossos de borracha
furavam-lhe o peito, entre as costelas. Aparelhos de vácuo mantinham pressão
negativa nos pulmões, garantindo a operação.
Quando tudo ia se ajustando, você contraiu
pneu¬monia. Tossia a todo instante. A sonda do nariz, que levava alimento além
das costuras, e era sua garantia, saíra num acesso de tosse. Os pontos, forçados
deram em abscesso. A infecção abriu a sutura. A comida não ia ao estômago,
escapava pelo pescoço. Longos dias de penosos curativos, mas a fístula não
fechava. Você precisava ser operada novamente.
Três horas foram gastas para consertar as
emendas e passar novo tubo. Tínhamos uma grande aliada: sua juventude. Em pouco
tempo, você se restabelecia, tudo ia bem.
De repente, nova dificuldade. A comunicação que
se abria no estômago começara a fechar-se, mal permitindo a passagem de um pouco
d'água. Alimentos eram retidos. Somente nova operação poderia corrigir o
defeito. Pela terceira vez, você desfilou pelos corredores, adormecida na maca.
Mais duas horas de cirurgia, anestesia, oxigênio, soros e transfusões. Nem
parecia mais a mesma, quase caricatura do que fora. Magra, olhos salientes,
rosto afinalado, destacando o nariz. E novamente você triunfou, resistiu,
restabeleceu-se rapidamente.
Curta alegria. A nova passagem começou a
estreitar-se pouco a pouco. Você precisava ajudar com a mão, comprimido com
força o bocado de comida, para forçá-Io a descer. Por fim, só conseguia ingerir
líquidos. Radiografias mostraram estreitamento fechando-se cada dia mais. Eu
deveria operá-Ia pela quarta vez.
Agora tudo era mais difícil. Foram horas de
trabalho penoso. Tecidos duros, irreconhecíveis, atravessados por cicatrizes em
todas as direções, terminada a operação, a passagem ficara ampla e fácil.
Felizmente, tudo correra bem.
Agora você engolia qualquer alimento sem
dificuldade. O pedaço de intestino posto no lugar do esôfago desempenhava
perfeitamente sua nova função. Os alimentos deglutidos passavam rapidamente ao
estômago, sem dificuldade. Você começava a ganhar peso e força, recuperando os
12 quilos pedidos.
Seis meses internada, quatro vezes operada, 30
radiografias, seis litros de sangue, muito mais do que possuía em seu corpo,
dias e noites de cuidados e dedicação de médicos e enfermeiras, era o balanço
sumário de sua cura. Apresei-me em dar-lhe alta, satisfeito pelo resultado do
enxerto, e por vê-Ia retomar a vida. As minúcias da técnica, as complicações, o
funcionamento do novo esôfago absorvia minha atenção.
Ao despedir-me, pedi que voltasse dentro de
três meses para novas radiografias de controle. Você, que tanto sofrera e
raramente ria, deu-me o prêmio do sorriso. Agradeceu. Foi embora.
O êxito do caso animava-me a apresentá-Io num
próximo congresso médico, como coroação final. Você, porém, reservara para si o
último ato. Em sua breve existência, na pequena experiência de sua imaturidade,
veio ensinar a homens velhos e calejados que é inútil reparar o corpo sem
lancetar também os abscessos da alma. Dias após haver-nos deixado, recebi
chamado urgente para ir ao pronto ¬socorro. Você se suicidara, bebendo
formicida.
Ao afastar o lençol branco que a cobria,
admirei-me de vê-Ia tranqüila, quase feliz. Desaparecera aquela tristeza
infinita que eu atribuía ao sofrimento físico. Peguei sua mãozinha inerte,
passei os dedos por seus cabelos úmidos, por seu rostinho ainda quente, como o
fizera tantas vezes. Baixei a cabeça e, em profunda tristeza, pedi-lhe perdão.
Perdão, Doralice: na verdade, eu estava cego.
Salomào A. Chaib. Médico, livre docente de
Clinica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
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