sexta-feira, 23 de novembro de 2012

E AGORA, DOUTOR?

ALLELUIAU

ANO 1 Nº5 Outubro /2001 Informativo Ecumênico do .Serviço Religioso do Hospital das Clínicas da FMUSP

E AGORA, DOUTOR?

Perdão, Doralice. Na verdade, eu estava cego. Preocupado com os males do corpo, esqueci seu espírito, ainda mais doente. Como pude descuidar-me da alma se, naquele dia, quando você se obstinava contra seus pais, traía seu sofrimento? É o eterno engano dos cirurgiões, que palpam tumores, e não se lembram de que há um coração oculto vibrando em ânsia, sonhos e sofrimentos.

Você tentou suicidar-se bebendo soda cáustica. Era o que tinha à mão na modesta cozinha onde sua mãe passava os dias. Fiquei imaginando que problemas tão graves a levaram, aos 16 anos, a desistir da vida. Que choques emocionais, conflitos de sentimentos, teriam ferido tão profundamente o cerne de sua própria existência, ainda tênue e indefinida?

Por que você não respondia aos insistentes apelos de sua mãe? Por que? Procuraria saber, quando não houvesse mais perigo, e você estivesse livre das dores físicas. Fosse qual fosse o motivo, não seria tão grave assim. Você, chegando à idade adulta, veria como é banal e sem importância o que parece grave e assustador na juventude.

No momento, precisava salvar-lhe a vida. Você tinha a boca, o esôfago e, certamente, o estômago queimados. Não conseguia engolir, babava. Era preciso fazer outra boca no abdome. Você não teria mais paladar, não conheceria o sabor dos pratos, não poderia beber água quando tivesse sede. Os alimentos seriam jogados diretamente no estômago.

Sob o efeito do anestésico, você dormia serenamente. Lembro-me de que parei alguns instantes, o bisturi esquecido na mão, a contemplar seu corpo jovem, tão belo, e senti remorso, como vândalo a desfigurar suas formas perfeitas. Um traço de sangue riscou seu ventre. O estômago estava queimado e retraído. A princípio, pensei em alargar o estômago. Passaria um fio pelo nariz, que seria apanhado através da abertura do estômago. Amarraria sondas cada vez mais grossas até dilatá-lo completamente.

Esperança vã. O esôfago estava fechado. Teria de retirá-lo e substituí-lo por um pedaço de intestino. Uma ponta seria costurada na boca e a outra no estômago.

Operação grave. Deveria abrir o pescoço, o tórax e o abdome. Era preciso retirar uma costela. O pedaço de intestino iria passar por trás do coração. Você necessitava estar bem preparada: corrigir a anemia e esterilizar os intestinos, destruindo os micróbios.

Luta árdua, de seis horas. Quatro cirurgiões, dois litros de sangue, vários litros de soro. Tubos grossos de borracha furavam-lhe o peito, entre as costelas. Aparelhos de vácuo mantinham pressão negativa nos pulmões, garantindo a operação.

Quando tudo ia se ajustando, você contraiu pneu¬monia. Tossia a todo instante. A sonda do nariz, que levava alimento além das costuras, e era sua garantia, saíra num acesso de tosse. Os pontos, forçados deram em abscesso. A infecção abriu a sutura. A comida não ia ao estômago, escapava pelo pescoço. Longos dias de penosos curativos, mas a fístula não fechava. Você precisava ser operada novamente.

Três horas foram gastas para consertar as emendas e passar novo tubo. Tínhamos uma grande aliada: sua juventude. Em pouco tempo, você se restabelecia, tudo ia bem.

De repente, nova dificuldade. A comunicação que se abria no estômago começara a fechar-se, mal permitindo a passagem de um pouco d'água. Alimentos eram retidos. Somente nova operação poderia corrigir o defeito. Pela terceira vez, você desfilou pelos corredores, adormecida na maca. Mais duas horas de cirurgia, anestesia, oxigênio, soros e transfusões. Nem parecia mais a mesma, quase caricatura do que fora. Magra, olhos salientes, rosto afinalado, destacando o nariz. E novamente você triunfou, resistiu, restabeleceu-se rapidamente.

Curta alegria. A nova passagem começou a estreitar-se pouco a pouco. Você precisava ajudar com a mão, comprimido com força o bocado de comida, para forçá-Io a descer. Por fim, só conseguia ingerir líquidos. Radiografias mostraram estreitamento fechando-se cada dia mais. Eu deveria operá-Ia pela quarta vez.

Agora tudo era mais difícil. Foram horas de trabalho penoso. Tecidos duros, irreconhecíveis, atravessados por cicatrizes em todas as direções, terminada a operação, a passagem ficara ampla e fácil. Felizmente, tudo correra bem.

Agora você engolia qualquer alimento sem dificuldade. O pedaço de intestino posto no lugar do esôfago desempenhava perfeitamente sua nova função. Os alimentos deglutidos passavam rapidamente ao estômago, sem dificuldade. Você começava a ganhar peso e força, recuperando os 12 quilos pedidos.

Seis meses internada, quatro vezes operada, 30 radiografias, seis litros de sangue, muito mais do que possuía em seu corpo, dias e noites de cuidados e dedicação de médicos e enfermeiras, era o balanço sumário de sua cura. Apresei-me em dar-lhe alta, satisfeito pelo resultado do enxerto, e por vê-Ia retomar a vida. As minúcias da técnica, as complicações, o funcionamento do novo esôfago absorvia minha atenção.

Ao despedir-me, pedi que voltasse dentro de três meses para novas radiografias de controle. Você, que tanto sofrera e raramente ria, deu-me o prêmio do sorriso. Agradeceu. Foi embora.

O êxito do caso animava-me a apresentá-Io num próximo congresso médico, como coroação final. Você, porém, reservara para si o último ato. Em sua breve existência, na pequena experiência de sua imaturidade, veio ensinar a homens velhos e calejados que é inútil reparar o corpo sem lancetar também os abscessos da alma. Dias após haver-nos deixado, recebi chamado urgente para ir ao pronto ¬socorro. Você se suicidara, bebendo formicida.

Ao afastar o lençol branco que a cobria, admirei-me de vê-Ia tranqüila, quase feliz. Desaparecera aquela tristeza infinita que eu atribuía ao sofrimento físico. Peguei sua mãozinha inerte, passei os dedos por seus cabelos úmidos, por seu rostinho ainda quente, como o fizera tantas vezes. Baixei a cabeça e, em profunda tristeza, pedi-lhe perdão.

Perdão, Doralice: na verdade, eu estava cego.

Salomào A. Chaib. Médico, livre docente de Clinica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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A morte é sinônimo de saudades...