sábado, 29 de setembro de 2012

ENTREVISTA DOS ALUNOS GRUPO VIDA E MORTE: LAÇOS DE EXISTÊNCIA


Aluna: Tássia Reis Theodoro



Luto e Morte – uma entrevista dentro do RH
 
- Conte-me um pouco mais sobre sua formação:
Bom, eu me formei há 5 anos já. Sempre me interessei pela área clínica, mas sempre atuei em RH.
- E em relação às disciplinas?
Gostava muito das matérias relacionadas às fases do desenvolvimento e as linhas teóricas também.
- Você teve aulas de tanatologia?
Não, não tive. Na verdade, só fui saber o que era tanatologia nas minhas conversas com você (risos). Pra ser sincera, acho que falamos um pouco sobre luto e morte nas aulas voltadas para os idosos, acho que era desenvolvimento da velhice. Mas nunca estudei isso atrelado às outras fases da vida.
- Fale um pouco da sua atuação profissional hoje.
Eu sou analista de Recursos Humanos, mais especificamente, trabalho com Recrutamento e Seleção/Treinamento e Desenvolvimento.
- Qual o tipo de empresa que você trabalha?
É uma empresa que seleciona e treina vigilantes e seguranças. Eles são contratados por nós, mas são terceirizados para outras empresas que necessitam desse tipo de serviço, como bancos, por exemplo.
- Você consegue descrever um pouco mais suas atividades profissionais e seu cotidiano?
Claro. É recrutamento e seleção de profissionais da área de vigilância e segurança, bem como treinamentos comportamentais para a função e levantamento de demandas da empresa e dos funcionários.
Já meu cotidiano é tranquilo, chego cedo e saio tarde, normalmente. Grande parte do tempo, trabalho fazendo entrevistas, no restante do tempo atuo com treinamentos. Tenho contato com candidatos na seleção e nas entrevistas de desligamento. Acho que faço entre 20 a 25 entrevistas por semana e todos os treinamentos são em grupo. Faço uns 2 treinamentos por semana, mais ou menos.
- Como é sua equipe de trabalho?
O RH é composto por duas áreas: departamento pessoal e recrutamento e seleção/ Treinamento e desenvolvimento.  No total são 6 pessoas, com meu diretor. São 3 analistas de recrutamento e seleção, dois analistas de departamento pessoal.
- Qual a formação acadêmica desses analistas? E do seu diretor?
Bom, os analistas de recrutamento são formados em Psicologia, meu diretor e um dos analistas de DP são administradores e a outra analista de DP é assistente social.
- Assistente social? Sério?
É, sim. Ela trata muito de documentações e cuida da parte social dos contratados.
- Há quanto tempo você trabalha lá?
2     anos e 4 meses
- Como está seu momento atual na empresa?
Há um cliente importante, um banco, que está com uma demanda grande de contratações. Houve um assalto nesse banco há uns meses e um segurança foi atingido e morreu. Esse segurança era novo e estava na empresa há pouco tempo. Engraçado que fui eu quem entrevistou esse rapaz e lembro muito pouco dele. A situação está complicada, outros funcionários estão preocupados com sua segurança, já que trabalham na mesma condição. Muitos acreditam que houve algum tipo de falta de treinamento e despreparo do funcionário, para que o assalto acabasse dessa forma. Alguns culpam a empresa por esse incidente, outros culpam o rapaz.
- Há preparo ou treinamento para essas situações?
Tem treinamento técnico com outros vigilantes. Eles explicam como se portar nessas situações, não reagir, as tentar identificar possíveis assaltantes, essas coisas.
- Então, os outros funcionários estão buscando um culpado para a morte do rapaz?
Pois é, como se o assaltante não fosse o único culpado. Acho que se eles culparem alguém fica mais fácil pra eles compreenderem a morte do rapaz e, talvez, sintam-se menos receosos.
- Como você lidou com a notícia da morte do funcionário? E depois?
A empresa foi notificada na mesma hora. A notícia chegou primeiro pro DP, que busca toda a documentação e notifica a família. A assistente social é responsável por ir junto com o diretor verificar o que a família precisa. Uma vez que noticia entre na empresa, corre por todos os lados. Tudo que chegou até mim foi através de conversas paralelas, informais, nunca houve um comunicado a todos. Um supervisor de treinamento anexou um papel com local de velório e enterro e só. O resto foram conversas ouvidas nos corredores, almoços e banheiros. Ficou uma sensação estranha no ar.
- Sensação estranha?
É, sabe como é, né? Alguém que você conheceu morre... é muito estranho! Fico meio impressionada com essas coisas, dá pena dele, da família, o moço era muito novo, acho que só 22 anos.
- De que forma você percebe que a morte do funcionário X afetou o ambiente de trabalho?
O clima ficou mais pesado e as pessoas tem mais medo de trabalhar pra esse cliente. Ninguém fala muito do que houve, mal toca no nome dele. Algumas moças da faxina choraram por ele e até acenderam uma vela no banheiro. Mas foi isso. Tá todo mundo apreensivo depois disso e parece que vão mudar o treinamento técnico. Também acho que tenho tido menos candidatos pras minhas vagas.
- As pessoas têm agido de formas distintas frente à morte do funcionário X? Alguma delas a procurou?
Não, parece que um rapaz que já trabalhou no banco procurou a assistente social, querendo conversar sobre o que aconteceu. Infelizmente não há uma pessoa apta para falar sobre o assunto, sabe? Quem é formado em psicologia atua com recrutamento e seleção, não com assistência. O que aconteceu bastante foi que muitas pessoas procuraram o DP pra saber o que aconteceria com suas famílias caso eles morressem: queriam saber o que receberiam, como seria feito isso.
- Você acredita que a morte dele lhe afetou? De que forma?
Ah, acho que sim. Ele era novo e acho que tudo isso mexe com todos. Faz com que pense na sua própria morte. Mas não acho que tenha mudado minha forma de trabalhar, não me prejudicou assim. Só impressiona.
- Você é católica, né?
Isso.
- E qual sua relação com a religião?
Bom, eu vou à missa quando posso. Tenho santinhos espalhados pela casa e na minha mesa de trabalho. Também tenho aqueles na carteira, sabe? É isso, mas também acredito em algumas coisas do Espiritismo. Acho que ele preenche umas lacunas que o Catolicismo não preenche.
- Você acha que a sua religião modifica a forma como você percebe a morte do funcionário?
Não sei te dizer. Acho que a religião interfere, sim. Eu acho que tudo acontece por que tem que acontecer que ele tinha que morrer por que era hora dele. Isso está ligado a minha religião, né?
- Acho que está ligado a sua crença.
É, eu acho que pessoas mais religiosas tem mais facilidade em aceitar, mas não sei de que forma isso afetou minha aceitação. Talvez me conforte, sei lá.
- Há/houve espaço para discussões no trabalho sobre a morte dele?
Não, não há. Só fofocas.
- Você notou que há preocupação dos dirigentes da empresa com a saúde emocional desses funcionários após o ocorrido com o funcionário X?
Talvez eles busquem tranquilizar o funcionário para que este não crie problemas ao trabalhar na empresa. Mas não há uma preocupação efetiva. Não buscaram um grupo de apoio ou contrataram um psicólogo, nem nada.
 
- Então não houve nenhuma estratégia elaborada pela RH para perceber/acolher os funcionários em luto?
Não, não houve nada a respeito.
- Você se sente preparada para lidar com essas questões?
Profissionalmente? Acho que não... Sei lá, não lido bem com essas questões... Fora que tenho muito trabalho pra fazer, né?
- Você acredita que seja importante que pessoas do RH busquem ter mais conhecimento dessa área para que possam ajudar funcionários nessas condições?
Sim, especialmente nesse segmento onde acidentes acontecem. Acho que seria bom contratar um psicólogo apto pra lidar com essas questões, acolher esses funcionários. Eles ficam meio perdidos nessas situações. 

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A morte é sinônimo de saudades...