ENTREVISTA DOS ALUNOS GRUPO VIDA E MORTE: LAÇOS DE EXISTÊNCIA
Aluna: Tássia Reis Theodoro
Luto e Morte – uma entrevista dentro do
RH
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Conte-me um pouco mais sobre sua formação:
Bom, eu me formei há 5 anos já. Sempre
me interessei pela área clínica, mas sempre atuei em RH.
- E
em relação às disciplinas?
Gostava muito das matérias relacionadas
às fases do desenvolvimento e as linhas teóricas também.
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Você teve aulas de tanatologia?
Não, não tive. Na verdade, só fui saber
o que era tanatologia nas minhas conversas com você (risos). Pra ser sincera,
acho que falamos um pouco sobre luto e morte nas aulas voltadas para os idosos,
acho que era desenvolvimento da velhice. Mas nunca estudei isso atrelado às
outras fases da vida.
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Fale um pouco da sua atuação profissional hoje.
Eu sou analista de Recursos Humanos,
mais especificamente, trabalho com Recrutamento e Seleção/Treinamento e
Desenvolvimento.
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Qual o tipo de empresa que você trabalha?
É uma empresa que seleciona e treina
vigilantes e seguranças. Eles são contratados por nós, mas são terceirizados
para outras empresas que necessitam desse tipo de serviço, como bancos, por
exemplo.
-
Você consegue descrever um pouco mais suas atividades profissionais e seu
cotidiano?
Claro. É recrutamento e seleção de
profissionais da área de vigilância e segurança, bem como treinamentos
comportamentais para a função e levantamento de demandas da empresa e dos
funcionários.
Já meu cotidiano é tranquilo, chego cedo
e saio tarde, normalmente. Grande parte do tempo, trabalho fazendo entrevistas,
no restante do tempo atuo com treinamentos. Tenho contato com candidatos na
seleção e nas entrevistas de desligamento. Acho que faço entre 20 a 25
entrevistas por semana e todos os treinamentos são em grupo. Faço uns 2
treinamentos por semana, mais ou menos.
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Como é sua equipe de trabalho?
O RH é composto por duas áreas:
departamento pessoal e recrutamento e seleção/ Treinamento e
desenvolvimento. No total são 6 pessoas,
com meu diretor. São 3 analistas de recrutamento e seleção, dois analistas de
departamento pessoal.
-
Qual a formação acadêmica desses analistas? E do seu diretor?
Bom, os analistas de recrutamento são
formados em Psicologia, meu diretor e um dos analistas de DP são
administradores e a outra analista de DP é assistente social.
-
Assistente social? Sério?
É, sim. Ela trata muito de documentações
e cuida da parte social dos contratados.
- Há
quanto tempo você trabalha lá?
- Como
está seu momento atual na empresa?
Há um cliente importante, um banco, que
está com uma demanda grande de contratações. Houve um assalto nesse banco há
uns meses e um segurança foi atingido e morreu. Esse segurança era novo e
estava na empresa há pouco tempo. Engraçado que fui eu quem entrevistou esse
rapaz e lembro muito pouco dele. A situação está complicada, outros
funcionários estão preocupados com sua segurança, já que trabalham na mesma
condição. Muitos acreditam que houve algum tipo de falta de treinamento e
despreparo do funcionário, para que o assalto acabasse dessa forma. Alguns
culpam a empresa por esse incidente, outros culpam o rapaz.
- Há
preparo ou treinamento para essas situações?
Tem treinamento técnico com outros
vigilantes. Eles explicam como se portar nessas situações, não reagir, as
tentar identificar possíveis assaltantes, essas coisas.
-
Então, os outros funcionários estão buscando um culpado para a morte do rapaz?
Pois é, como se o assaltante não fosse o
único culpado. Acho que se eles culparem alguém fica mais fácil pra eles
compreenderem a morte do rapaz e, talvez, sintam-se menos receosos.
- Como
você lidou com a notícia da morte do funcionário? E depois?
A empresa foi notificada na mesma hora.
A notícia chegou primeiro pro DP, que busca toda a documentação e notifica a
família. A assistente social é responsável por ir junto com o diretor verificar
o que a família precisa. Uma vez que noticia entre na empresa, corre por todos
os lados. Tudo que chegou até mim foi através de conversas paralelas,
informais, nunca houve um comunicado a todos. Um supervisor de treinamento
anexou um papel com local de velório e enterro e só. O resto foram conversas
ouvidas nos corredores, almoços e banheiros. Ficou uma sensação estranha no ar.
-
Sensação estranha?
É, sabe como é, né? Alguém que você
conheceu morre... é muito estranho! Fico meio impressionada com essas coisas,
dá pena dele, da família, o moço era muito novo, acho que só 22 anos.
- De
que forma você percebe que a morte do funcionário X afetou o ambiente de
trabalho?
O clima ficou mais pesado e as pessoas
tem mais medo de trabalhar pra esse cliente. Ninguém fala muito do que houve,
mal toca no nome dele. Algumas moças da faxina choraram por ele e até acenderam
uma vela no banheiro. Mas foi isso. Tá todo mundo apreensivo depois disso e
parece que vão mudar o treinamento técnico. Também acho que tenho tido menos
candidatos pras minhas vagas.
- As
pessoas têm agido de formas distintas frente à morte do funcionário X? Alguma
delas a procurou?
Não, parece que um rapaz que já
trabalhou no banco procurou a assistente social, querendo conversar sobre o que
aconteceu. Infelizmente não há uma pessoa apta para falar sobre o assunto,
sabe? Quem é formado em psicologia atua com recrutamento e seleção, não com
assistência. O que aconteceu bastante foi que muitas pessoas procuraram o DP
pra saber o que aconteceria com suas famílias caso eles morressem: queriam
saber o que receberiam, como seria feito isso.
- Você
acredita que a morte dele lhe afetou? De que forma?
Ah, acho que sim. Ele era novo e acho
que tudo isso mexe com todos. Faz com que pense na sua própria morte. Mas não
acho que tenha mudado minha forma de trabalhar, não me prejudicou assim. Só
impressiona.
-
Você é católica, né?
Isso.
- E
qual sua relação com a religião?
Bom, eu vou à missa quando posso. Tenho santinhos
espalhados pela casa e na minha mesa de trabalho. Também tenho aqueles na
carteira, sabe? É isso, mas também acredito em algumas coisas do Espiritismo.
Acho que ele preenche umas lacunas que o Catolicismo não preenche.
- Você
acha que a sua religião modifica a forma como você percebe a morte do
funcionário?
Não sei te dizer. Acho que a religião
interfere, sim. Eu acho que tudo acontece por que tem que acontecer que ele
tinha que morrer por que era hora dele. Isso está ligado a minha religião, né?
-
Acho que está ligado a sua crença.
É, eu acho que pessoas mais religiosas
tem mais facilidade em aceitar, mas não sei de que forma isso afetou minha
aceitação. Talvez me conforte, sei lá.
- Há/houve
espaço para discussões no trabalho sobre a morte dele?
Não, não há. Só fofocas.
- Você
notou que há preocupação dos dirigentes da empresa com a saúde emocional desses
funcionários após o ocorrido com o funcionário X?
Talvez eles busquem tranquilizar o
funcionário para que este não crie problemas ao trabalhar na empresa. Mas não
há uma preocupação efetiva. Não buscaram um grupo de apoio ou contrataram um
psicólogo, nem nada.
-
Então não houve nenhuma estratégia elaborada pela RH para perceber/acolher os
funcionários em luto?
Não, não houve nada a respeito.
- Você
se sente preparada para lidar com essas questões?
Profissionalmente? Acho que não... Sei
lá, não lido bem com essas questões... Fora que tenho muito trabalho pra fazer,
né?
- Você
acredita que seja importante que pessoas do RH busquem ter mais conhecimento
dessa área para que possam ajudar funcionários nessas condições?
Sim, especialmente nesse segmento onde
acidentes acontecem. Acho que seria bom contratar um psicólogo apto pra lidar
com essas questões, acolher esses funcionários. Eles ficam meio perdidos nessas
situações.
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