ENTREVISTA DOS ALUNOS DO GRUPO DE ESTUDO PSICOLOGIA HOSPITALAR 1 SEMESTRE DE 2012
ALUNA: Camila B. Reis
Entrevista
1. Você
teve matéria de Psicologia Hospitalar em sua graduação? Comente.
Resposta- Sim
tive, inclusive comecei a direcionar minha formação, a partir do 2º, 3º ano da
graduação. No 5º ano, escolhi o estágio na área, e trabalhei na cardiologia da
Beneficência Portuguesa da minha cidade, e no Hospital Universitário de
Barretos. Acabei tendo contato antes mesmo de me formar, com os diferentes
setores do hospital, até com a UTI, porém era bem diferente daqui, porque o psicólogo era visto apenas como alguém ali
para “apagar incêndio”, isto é, para lidar com aqueles pacientes que davam
trabalho pra equipe, os “difíceis”, e não como um membro de uma equipe
multidisciplinar. Aliás, por serem cidades relativamente pequenas, geralmente
era apenas um psicólogo para dar conta de um hospital enorme. Aqui os
profissionais são bem mais valorizados.
2. Quanto
tempo atua com a área hospitalar?
Resposta- Na verdade, desde a graduação.Me formei, faz
pouco tempo, cerca de 2 anos e meio, e sempre atuei na área. Vim pra São Paulo,
para fazer aprimoramento no INCOR, acabei conhecendo pessoas de outras
instituições, como por exemplo, da Santa Casa.Então, digamos que eu sempre
atuei dentro da Psicologia Hospitalar.Só agora eu estou começando a ter alguns
pacientes em clínica.
3. Quanto
tempo está nesta instituição?
Reesposta-
Há quase um ano. A instituição tem pouco tempo de funcionamento, apenas 4
anos,então ainda é bem recente. Por enquanto eu estou como cobertura de
profissionais que tiraram férias, ou estão de licença.
Resposta- Porque
eu gosto do dinamismo que existe dentro do hospital, da imprevisibilidade,
sabe? Nunca um dia é igual ao outro.
Agora, eu fico no setor de radioterapia do Instituto, eu acho muito quieto. O
paciente vem, faz a “radio” e saí. Sempre gostei de trabalhar em Pronto Socorro, e em UTI,são minhas áreas
preferidas, pois não se pára um segundo.Além disso, cada vez que saio do
hospital, saio bem pois sinto que cumpri a missão de aliviar a dor psíquica
daquelas pessoas, e de seus familiares.
5. Qual foi
o caminho traçado para chegar até aqui?
Resposta- Como eu
te falei fiz o estágio já na graduação,
depois fiz aprimoramento no INCOR e após o aprimoramento, conheci uma psicóloga
do curso da pós, que me indicou no Instituto. Foi um longo processo,
entrevista, dinâmica, etc, mas consegui passar.
6. Em algum
momento pensou em desistir?
Resposta- Não,
nunca pensei. Acredito que quem está nessa área tem que gostar do que faz, e só
vai saber se gosta ou não quando atuar.Não penso em desistir, mas tenho alguns
planos pessoais para o futuro, um deles é voltar para minha cidade, mas não
agora. Talvez, quando eu voltar queira uma rotina mais tranqüila e invista em
um consultoria, mas isso mais pra frente.
7. Qual
situação considera mais difícil em sua atuação como Psicólogo Hospitalar?
Descreva.
Resposta- Você diz difícil em que sentido? Atendimento,
questões pessoais, técnica? - Então,
me vem apenas um caso á cabeça, que mexeu muito comigo,e até hoje eu tenho
curiosidade para saber o que aconteceu. Era uma paciente jovem, que precisava
fazer uma cirurgia cardíaca de troca de válvula, casada, mãe de quatro filhos.
Na época em que adoeceu, ela estava começando a se tornar Testemunha de Jeová,
e eles tem toda uma questão com transfusão de sangue, e para poder realizar a
cirurgia, que era de um porte grande, ela precisava fazê-la. O médico disse que
não a operaria se ela não aceitasse fazer a transfusão. Esta paciente entrou em
um enorme conflito, pois ela estava entre a fé, e a recuperação da sua saúde.
Foi aí que chamaram a Psicologia. Quando a vi pela primeira vez, o técnico de
enfermagem, me pediu para convencê-la, a operar, e expliquei que aquele não era o meu papel. E
a primeira coisa que disse, quando a vi foi “Eu não estou aqui pra te convencer
á nada”, daí ela desmontou, começou a chorar , e fomos estabelecendo um
vínculo. Eu inclusive, comecei a ler algumas revistinhas que explicavam como
funcionava a religião e tudo mais. Tentei utilizar no trabalho feito com ela,
uma metáfora bem famosa, e até uma piadinha: Diz de homem que estava se
afogando, mas jurava que Deus iria lhe salvar.Mandaram um salva-vidas, mas o
homem continuava dizendo que Deus iria lhe salvar. Em seguida, mandaram um
helicóptero, mas a resposta era a mesma, ele não aceitou.Por fim, o homem acaba
morrendo e quando chega aos céus, pergunta ao Senhor, porque ele não salvou a
sua vida. Deus por sua vez, retruca, que lhe mandou todos os recursos, mas que
ele escolheu morrer.
Porém
isso não adiantou, e ela ficou realmente com a religião. Recebia visitas
constantes de pessoas do culto, que haviam passado pela mesma situação e lhe
explicavam como agir. Da minha parte, respeitei inteiramente a decisão dela, e
disse que juntas, iríamos fazer o possível para que ela conseguisse operar sem
precisar da transfusão. Conseguimos achar um outro médico que a operou e a cirurgia
foi um sucesso, inclusive ela se recuperou muito bem e muito rápido, nunca
tinha visto alguém ter uma recuperação tão boa após uma cirurgia cardíaca!
Quando a vi depois da operação, ela só chorava e a agradecia á Deus, foi muito
emocionante, pois foi todo um processo até que ela conseguisse fazer a cirurgia
e eu estive ao seu lado.
Uma
das coisas que eu sempre tive dificuldade também é em atender criança, seja em
hospital, seja em consultório. Eu pessoalmente me envolvo muito no mundo da
criança, mexe muito comigo, tanto que não atendo.
8. Qual foi
a melhor coisa que já lhe aconteceu como Psicólogo Hospitalar?
Resposta- Acho
que é o próprio amadurecimento que a profissão lhe trás como pessoa. Uma
consciência de humanidade e de finitude. Todos nós somos iguais, quando você
está em hospital, não existe diferença entre sexo, raça, ou crença. Além disso,
trabalhar neste ambiente lhe coloca em contato direto com a face da morte, e te
faz entender o quanto realmente esta é a única certeza da vida.
Hoje
eu costumo me cuidar bem mais, me preocupar com a minha saúde, e não deixo nada
pra amanhã. Claro, que planejar o futuro faz parte, e é sábio que não tenhamos
a certeza do dia da nossa morte, senão eu não estaria aqui conversando com você,
concorda? Rs. Porém eu digo, de não deixar pra depois, pra dizer o quanto você
ama alguém que é importante, pois de fato nós não sabemos o quanto vamos estar
ao lado das pessoas, já que a qualquer momento, você ou elas poderão partir. Eu
ligo pra minha mãe e digo que a amo, pra ela se cuidar, etc. não quero viver
cenas familiares em UTI, de filhos chorando pelos pais inconscientes, dizendo
que os amam, pedindo perdão e tudo mais. No entanto, isto é inevitável, pois
sempre que vejo algo assim, penso que poderia estar no lugar daquelas pessoas.
9. Como é o
trabalho em equipe, acredita que possui autonomia? Cite os pós e os contras.
Resposta-Eu
acredito que em São Paulo, o psicólogo tem autonomia dentro da equipe sim. Ao
menos aqui, eu não tive problemas com isso. Por conta do hospital em que
trabalho ser recente, ele já nasceu com essa cultura de equipe multidisciplinar.Então
temos um trabalho em que cada um realmente faz sua parte, e sinto que minhas
decisões e opiniões são respeitadas.
Porém
ás vezes é inevitável ter que explicar o seu papel dentro da instituição, pois
em certos casos vêem o psicólogo como alguém que deve administrar momentos
caóticos que alguns pacientes ocasionam na equipe. Lembro-me de um certo caso,
em que um paciente com dor oncológica, estava gritando muito, pois realmente é
uma dor muito aguda, e ele pedia uma dose de metadona.Me chamaram dizendo para
que eu o tratasse da abstinência da medicação, pois ele estava dependente. Ora,
o que eu poderia fazer se ele estava viciado? O jeito era tratar com medicação.
Chegando lá, vi que a reação do paciente era puramente por conta da dor, uma
intervenção psicológica não iria adiantar enquanto ele não tivesse alívio.
Conversei com a enfermeira e disseram que já haviam dado vários remédios,
inclusive morfina, e nada adiantava.O jeito era conversar com o médico, não
chamar o psicólogo! Expliquei que não podia fazer muita coisa.
Mas
no geral, tenho um relacionamento bom com a equipe, e é muito legal, pois
várias vezes eles que solicitam uma conversa com o psicólogo, pois tem uma rotina
muito desgastante, e também acabam muito estressados.
10.
Qual
é a média salarial e carga horária do Psicólogo Hospitalar nesta instituição?
Comente.
Resposta- A
média salarial não é alta, mas dá pra se manter . Eu trabalho das 13 ás 22 hs, normalmente.Mas
quando tenho que cobrir o horário de alguém isto varia, pode ser a noite ou até
mesmo de madrugada. Por isso minha agenda é bem complicada e não consegui
engajar muitos pacientes de consultório, pois depois tenho que ficar
remanejando os horários. Também existem os plantões em finais de semana
alternados, e feriados funcionam sob o sistema de escalas.
11.
Qual
sugestão daria para aqueles que querem ingressar na área da Psicologia Hospitalar?
Resposta- Aprimoramento é fundamental! E também se deve
pensar sobre a escolha do lugar em que se vai fazê-lo. Por exemplo, o INCOR
onde eu fiz, é só pra área da cardiologia. Se a pessoa tem um interesse nessa
área em específico, é legal. Ou no HC, em que as áreas são divididas.
Agora, se você quer conhecer a dinâmica geral de um hospital,
é legal tentar naqueles que englobam todas as áreas, por exemplo: Santa Casa,
Hospital do Servidor, pois irá te dar uma visão mais ampla, caso não tenha um interesse definido em nenhuma
patologia. Além disso, o aprimoramento te oferece um rol muito importante de
contatos, e talvez uma oportunidade para trabalhar em um outro hospital depois
que terminar.No meu caso foi bem difícil, e fiquei preocupada depois que
terminei o aprimoramento, porque o INCOR é feito praticamente por funcionários
públicos, que já tem uma carreira mas consolidada, eu não tinha muita chance de
continuar lá dentro, nem poderia ser indicada. Porém, em outros hospitais, até
existe essa possibilidade.
O mais importante é gostar do que se faz.Para descobrir isso,
é preciso estar lá! Não tem outro jeito! Você só vai saber com a prática. Mesmo
essas questões relacionadas a morte, a doença ,etc. Você só irá saber se dá
conta ou não, se tentar! E se gostar, pode ter certeza, que embora seja uma rotina
cansativa, é extremamente gratificante. Bom, eu sou suspeita pra falar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário