domingo, 16 de setembro de 2012

ENTREVISTA DOS ALUNOS DO GRUPO DE ESTUDO PSICOLOGIA HOSPITALAR 1 SEMESTRE DE 2012
 
ALUNA: Camila B. Reis
 
Entrevista
1.  Você teve matéria de Psicologia Hospitalar em sua graduação? Comente.
Resposta- Sim tive, inclusive comecei a direcionar minha formação, a partir do 2º, 3º ano da graduação. No 5º ano, escolhi o estágio na área, e trabalhei na cardiologia da Beneficência Portuguesa da minha cidade, e no Hospital Universitário de Barretos. Acabei tendo contato antes mesmo de me formar, com os diferentes setores do hospital, até com a UTI, porém era bem diferente daqui, porque  o psicólogo era visto apenas como alguém ali para “apagar incêndio”, isto é, para lidar com aqueles pacientes que davam trabalho pra equipe, os “difíceis”, e não como um membro de uma equipe multidisciplinar. Aliás, por serem cidades relativamente pequenas, geralmente era apenas um psicólogo para dar conta de um hospital enorme. Aqui os profissionais são bem mais valorizados.
 
2.  Quanto tempo atua com a área hospitalar?
Resposta-  Na verdade, desde a graduação.Me formei, faz pouco tempo, cerca de 2 anos e meio, e sempre atuei na área. Vim pra São Paulo, para fazer aprimoramento no INCOR, acabei conhecendo pessoas de outras instituições, como por exemplo, da Santa Casa.Então, digamos que eu sempre atuei dentro da Psicologia Hospitalar.Só agora eu estou começando a ter alguns pacientes em clínica.
 
3.  Quanto tempo está nesta instituição?
Reesposta- Há quase um ano. A instituição tem pouco tempo de funcionamento, apenas 4 anos,então ainda é bem recente. Por enquanto eu estou como cobertura de profissionais que tiraram férias, ou estão de licença.
 4.  Por que escolheu a área da Psicologia Hospitalar?
Resposta- Porque eu gosto do dinamismo que existe dentro do hospital, da imprevisibilidade, sabe? Nunca  um dia é igual ao outro. Agora, eu fico no setor de radioterapia do Instituto, eu acho muito quieto. O paciente vem, faz a “radio” e saí. Sempre gostei de trabalhar  em Pronto Socorro, e em UTI,são minhas áreas preferidas, pois não se pára um segundo.Além disso, cada vez que saio do hospital, saio bem pois sinto que cumpri a missão de aliviar a dor psíquica daquelas pessoas, e de seus familiares.
 
5.  Qual foi o caminho traçado para chegar até aqui?
Resposta- Como eu te falei  fiz o estágio já na graduação, depois fiz aprimoramento no INCOR e após o aprimoramento, conheci uma psicóloga do curso da pós, que me indicou no Instituto. Foi um longo processo, entrevista, dinâmica, etc, mas consegui passar.
 
6.  Em algum momento pensou em desistir?
Resposta- Não, nunca pensei. Acredito que quem está nessa área tem que gostar do que faz, e só vai saber se gosta ou não quando atuar.Não penso em desistir, mas tenho alguns planos pessoais para o futuro, um deles é voltar para minha cidade, mas não agora. Talvez, quando eu voltar queira uma rotina mais tranqüila e invista em um consultoria, mas isso mais pra frente.

7.  Qual situação considera mais difícil em sua atuação como Psicólogo Hospitalar? Descreva.
Resposta-  Você diz difícil em que sentido? Atendimento, questões pessoais, técnica? -  Então, me vem apenas um caso á cabeça, que mexeu muito comigo,e até hoje eu tenho curiosidade para saber o que aconteceu. Era uma paciente jovem, que precisava fazer uma cirurgia cardíaca de troca de válvula, casada, mãe de quatro filhos. Na época em que adoeceu, ela estava começando a se tornar Testemunha de Jeová, e eles tem toda uma questão com transfusão de sangue, e para poder realizar a cirurgia, que era de um porte grande, ela precisava fazê-la. O médico disse que não a operaria se ela não aceitasse fazer a transfusão. Esta paciente entrou em um enorme conflito, pois ela estava entre a fé, e a recuperação da sua saúde. Foi aí que chamaram a Psicologia. Quando a vi pela primeira vez, o técnico de enfermagem, me pediu para convencê-la, a operar,  e expliquei que aquele não era o meu papel. E a primeira coisa que disse, quando a vi foi “Eu não estou aqui pra te convencer á nada”, daí ela desmontou, começou a chorar , e fomos estabelecendo um vínculo. Eu inclusive, comecei a ler algumas revistinhas que explicavam como funcionava a religião e tudo mais. Tentei utilizar no trabalho feito com ela, uma metáfora bem famosa, e até uma piadinha: Diz de homem que estava se afogando, mas jurava que Deus iria lhe salvar.Mandaram um salva-vidas, mas o homem continuava dizendo que Deus iria lhe salvar. Em seguida, mandaram um helicóptero, mas a resposta era a mesma, ele não aceitou.Por fim, o homem acaba morrendo e quando chega aos céus, pergunta ao Senhor, porque ele não salvou a sua vida. Deus por sua vez, retruca, que lhe mandou todos os recursos, mas que ele escolheu morrer.
 
Porém isso não adiantou, e ela ficou realmente com a religião. Recebia visitas constantes de pessoas do culto, que haviam passado pela mesma situação e lhe explicavam como agir. Da minha parte, respeitei inteiramente a decisão dela, e disse que juntas, iríamos fazer o possível para que ela conseguisse operar sem precisar da transfusão. Conseguimos achar um outro médico que a operou e a cirurgia foi um sucesso, inclusive ela se recuperou muito bem e muito rápido, nunca tinha visto alguém ter uma recuperação tão boa após uma cirurgia cardíaca! Quando a vi depois da operação, ela só chorava e a agradecia á Deus, foi muito emocionante, pois foi todo um processo até que ela conseguisse fazer a cirurgia e eu estive ao seu lado.
 
Uma das coisas que eu sempre tive dificuldade também é em atender criança, seja em hospital, seja em consultório. Eu pessoalmente me envolvo muito no mundo da criança, mexe muito comigo, tanto que não atendo.
8.  Qual foi a melhor coisa que já lhe aconteceu como Psicólogo Hospitalar?
Resposta- Acho que é o próprio amadurecimento que a profissão lhe trás como pessoa. Uma consciência de humanidade e de finitude. Todos nós somos iguais, quando você está em hospital, não existe diferença entre sexo, raça, ou crença. Além disso, trabalhar neste ambiente lhe coloca em contato direto com a face da morte, e te faz entender o quanto realmente esta é a única certeza da vida.
 
Hoje eu costumo me cuidar bem mais, me preocupar com a minha saúde, e não deixo nada pra amanhã. Claro, que planejar o futuro faz parte, e é sábio que não tenhamos a certeza do dia da nossa morte, senão eu não estaria aqui conversando com você, concorda? Rs. Porém eu digo, de não deixar pra depois, pra dizer o quanto você ama alguém que é importante, pois de fato nós não sabemos o quanto vamos estar ao lado das pessoas, já que a qualquer momento, você ou elas poderão partir. Eu ligo pra minha mãe e digo que a amo, pra ela se cuidar, etc. não quero viver cenas familiares em UTI, de filhos chorando pelos pais inconscientes, dizendo que os amam, pedindo perdão e tudo mais. No entanto, isto é inevitável, pois sempre que vejo algo assim, penso que poderia estar no lugar daquelas pessoas.
 
9.  Como é o trabalho em equipe, acredita que possui autonomia? Cite os pós e os contras.
Resposta-Eu acredito que em São Paulo, o psicólogo tem autonomia dentro da equipe sim. Ao menos aqui, eu não tive problemas com isso. Por conta do hospital em que trabalho ser recente, ele já nasceu com essa cultura de equipe multidisciplinar.Então temos um trabalho em que cada um realmente faz sua parte, e sinto que minhas decisões e opiniões são respeitadas.
 
Porém ás vezes é inevitável ter que explicar o seu papel dentro da instituição, pois em certos casos vêem o psicólogo como alguém que deve administrar momentos caóticos que alguns pacientes ocasionam na equipe. Lembro-me de um certo caso, em que um paciente com dor oncológica, estava gritando muito, pois realmente é uma dor muito aguda, e ele pedia uma dose de metadona.Me chamaram dizendo para que eu o tratasse da abstinência da medicação, pois ele estava dependente. Ora, o que eu poderia fazer se ele estava viciado? O jeito era tratar com medicação. Chegando lá, vi que a reação do paciente era puramente por conta da dor, uma intervenção psicológica não iria adiantar enquanto ele não tivesse alívio. Conversei com a enfermeira e disseram que já haviam dado vários remédios, inclusive morfina, e nada adiantava.O jeito era conversar com o médico, não chamar o psicólogo! Expliquei que não podia fazer muita coisa.
 
Mas no geral, tenho um relacionamento bom com a equipe, e é muito legal, pois várias vezes eles que solicitam uma conversa com o psicólogo, pois tem uma rotina muito desgastante, e também  acabam muito estressados.
 
10.       Qual é a média salarial e carga horária do Psicólogo Hospitalar nesta instituição? Comente.
Resposta- A média salarial não é alta, mas dá pra se manter  . Eu trabalho das 13 ás 22 hs, normalmente.Mas quando tenho que cobrir o horário de alguém isto varia, pode ser a noite ou até mesmo de madrugada. Por isso minha agenda é bem complicada e não consegui engajar muitos pacientes de consultório, pois depois tenho que ficar remanejando os horários. Também existem os plantões em finais de semana alternados, e feriados funcionam sob o sistema de escalas.
 
11.       Qual sugestão daria para aqueles que querem ingressar na área da Psicologia Hospitalar?
Resposta-  Aprimoramento é fundamental! E também se deve pensar sobre a escolha do lugar em que se vai fazê-lo. Por exemplo, o INCOR onde eu fiz, é só pra área da cardiologia. Se a pessoa tem um interesse nessa área em específico, é legal. Ou no HC, em que as áreas são divididas.
Agora, se você quer conhecer a dinâmica geral de um hospital, é legal tentar naqueles que englobam todas as áreas, por exemplo: Santa Casa, Hospital do Servidor, pois irá te dar uma visão mais ampla, caso  não tenha um interesse definido em nenhuma patologia. Além disso, o aprimoramento te oferece um rol muito importante de contatos, e talvez uma oportunidade para trabalhar em um outro hospital depois que terminar.No meu caso foi bem difícil, e fiquei preocupada depois que terminei o aprimoramento, porque o INCOR é feito praticamente por funcionários públicos, que já tem uma carreira mas consolidada, eu não tinha muita chance de continuar lá dentro, nem poderia ser indicada. Porém, em outros hospitais, até existe essa possibilidade.
O mais importante é gostar do que se faz.Para descobrir isso, é preciso estar lá! Não tem outro jeito! Você só vai saber com a prática. Mesmo essas questões relacionadas a morte, a doença ,etc. Você só irá saber se dá conta ou não, se tentar! E se gostar, pode ter certeza, que embora seja uma rotina cansativa, é extremamente gratificante. Bom, eu sou suspeita pra falar.

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A morte é sinônimo de saudades...