Na tarde ensolarada, o casarão de 1928 – resplandecendo trato estético – é um convite ao descanso em meio à metrópole agitada. Portões abertos e alguma movimentação no estacionamento deixam claro não se tratar de uma abonada residência nos Jardins. A placa discreta, Funeral Home, elucida a questão. É, provavelmente, o mais bem cuidado serviço funerário do País.
Inspirado nas casas existentes em alguns locais ao redor do mundo (quem nunca viu isso em um filme dos Estados Unidos?), o palacete é dedicado a trazer o máximo de conforto para o momento de despedida aos entes queridos. Possui salas amplas, lareira, varandas, mobília requintada e serviço de bufê. Quase uma lembrança daquele tempo em que os mortos passavam sua última noite no aconchego do próprio lar, cercados pela família e com o fogão fumegando por perto.
Esse carinho tem custo e, conforme o pacote escolhido, pode ultrapassar cinco dígitos. Tudo depende dos materiais e serviços associados. Para Márcia Regina Pinto, gerente de Atendimento da empresa, a maior qualidade de seu trabalho está "no acompanhamento dado pelos funcionários, que são pessoas acostumadas à burocracia desse momento. Profissionais especializados que têm o entendimento legal e da seriedade da situação". Segundo ela, o objetivo é que a família "fique sossegada e tranquila para tratar apenas de seus sentimentos, sem preocupações".
Isso significa receber cuidados completos, desde o registro de óbito até o anúncio de jornal, agendamento de missas e cartões de agradecimento para os que assinaram o livro de condolências, passando pela aquisição ou restauração do jazigo. Há quatro anos na cidade, o espaço possui uma agência do serviço funerário municipal, "onde é registrado o óbito e se pode fazer toda a compra, sem demora, pois tudo é feito com muita agilidade".
A experiência de Márcia revela que as urnas adquiridas pelos seus clientes custam entre R$ 1,9 mil e R$ 13 mil. E suas salas, quatro no total, têm custo de R$ 1,9 mil, R$ 3 mil, R$ 5 mil e R$ 6 mil, conforme o tamanho e comodidades.
Valores que incluem café, chá, água, biscoitos e salgados durante toda a permanência do velório, no geral em períodos que vão de 12 horas a 16 horas. Serviços como tanatopraxia, de acordo com a necessidade estética do morto, e carro com motorista podem ser contratados. A mansão ainda possui sala de internet e capela ecumênica.
Ela não fala sobre valores de investimento no negócio. Mas cita que o imóvel, integralmente restaurado, "ainda não é próprio". A companhia realiza entre 45 e 50 atendimentos por mês. "Na maioria das vezes com a aquisição dos serviços completos." E oferece as facilidades de pagamento com cartões, cheque (em até três vezes) ou depósito bancário. Além de desconto de 3% para quitação à vista.
Os proprietários da Funeral Home possuem o Cemitério Vale dos Pinheirais, "um dos mais belos do Brasil", funerária e uma assistência funeral (tipo de consórcio, em nível nacional).
Nessa modalidade, as famílias adquirem um pacote – que tem custo de adesão de R$ 1,5 mil (parcelado em dez vezes) e uma taxa mensal. "Pagam um pouquinho por mês, mas na hora em que precisam têm todos os serviços inclusos."
"Trabalhar aqui mudou minha maneira de ver a morte. Me sinto mais humana, vejo que nessa hora não há diferença entre as pessoas, vamos todos para o mesmo lugar. Tinha medo de tocar, de mexer em mortos. Agora, sei que isso é natural. A gente sabe que tem que tocar, para deixar a pessoa bonita. Nós trabalhamos para que ela volte a ficar parecida com o que a família gostaria de ver. Meu trabalho me fez entender mais os motivos da vida", define Márcia.
Bem-velado – Entre as iguarias, é possível pedir que os celebrantes sejam agraciados com um bem-velado. "É igual ao bem-casado, só que com roupinha preta". Conforme ela, "algumas famílias pedem, mas é um pouco raro. Tem gente que não gosta, porque não é uma festa".
Vizinhos ilustres
Aqueles que desejam montar seu descanso eterno em condomínios 'bem frequentados' devem preparar o bolso. Ser vizinho de Ayrton Senna no cemitério Parque Morumby (considerado um dos mais onerosos do Brasil) vai exigir o desembolso de, pelo menos, R$ 20 mil apenas com o jazigo.
Se o sonho do morto for ter como 'convivas' os membros da nata quatrocentona ou ícones do Modernismo, além de um bom dinheiro precisarão de muita paciência. Isso porque o Cemitério da Consolação (o primeiro da cidade) não possui um único espaço à venda. Somente as famílias detentoras dos sepulcros têm o direito de assentar ali seus mortos.
Para os menos abonados, o Serviço Funerário de São Paulo (SFMSP) informa que há quatro cemitérios públicos que oferecem enterros gratuitos na cidade: Vila Formosa, Vila Nova Cachoeirinha, Dom Bosco e São Luís.
Vale ressaltar que a taxa de sepultamento somente é cobrada quando o funeral é pago, e o valor varia de acordo com o modelo de caixão escolhido, que também contempla pessoas obesas e de estatura elevada, chamados de urnas "anormais", conforme tabela no site da autarquia.
O SFMSP informa ainda que todas as 12 prestadoras de bens, serviços e materiais, assim como as responsáveis pelas obras de infraestrutura, "são contratadas obedecendo aos ditames legais da Lei Federal nº 8.666/96". Atualmente na Capital ocorrem 250 óbitos por dia, sendo que são sepultadas 130 pessoas, em média, nos 22 cemitérios municipais. No crematório da Vila Alpina ocorrem 25 cremações a cada 24 horas.
O município possui dois fornos que estão em funcionamento no local. Outros dois foram adquiridos e instalados recentemente, porém aguardam a liberação da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, (CETESB), o que poderá dobrar a capacidade operacional.
O esquife da mente
As pessoas, hoje, negam a morte. Ela fica escondida, e quanto mais rápido se livrar da situação melhor. A triste constatação é de Sergio Perazzo, psicoterapeuta que atua com psicodrama há 38 anos. Ele acredita que "tamanha pompa nos velórios, bem como nas atuais cerimônias de casamento, são atos de ostentação". Uma forma de ampliar o "status da família".
E que "velórios assim beiram a perda da emotividade, pois são uma banalização do medo de encarar a morte". Ele lamenta que "a sociedade moderna, para se proteger, corra o risco de se distanciar dos seus temas fundamentais".
Autor do esgotado livro "Descansem em paz os nossos mortos dentro de mim", de 1986, Perazzo lembra que no passado as pessoas tinham oportunidade de dar adeus a seus entes queridos. "A intuição de que se ia morrer abria espaço para a preparação da despedida, a morte era uma cerimônia pública. Família e comunidade participavam, as pessoas deixavam as portas da casa abertas."
Para ele, é temeroso que "se a pessoa não tem compreensão do que significa o ritual de passagem, ela pode ficar com a morte engasgada na garganta. E nada pior do que não poder zerar as dívidas emocionais."
A psicóloga e tanatóloga Fernanda Rezende (especializada em UTI para adultos e cuidados paliativos) não vê problemas em as pessoas gastarem altas somas para velar e enterrar seus entes, desde que todo o processo seja verdadeiramente vivenciado. Quanto ao luxo, entende que a mente de quem banca a conta pensa: "faço pelos meus, o que quero que façam para mim".
A profissional avalia que "quando se está enlutado, o mundo ao redor fica vazio". E que "o luto, tecnicamente, dura um ano. É o período de passagem por datas importantes como o aniversário, o Natal... Aí gradativamente a pessoa vai revitalizando seu mundo". Renata adverte que "o luto é necessário e reprimi-lo não é saudável".
Ela alerta que existe uma espécie de "luto patológico, aquele em que o mundo interno está vazio. A pessoa não chora, e muda toda a decoração da casa na mesma semana. Ou, ao contrário, mantém o quarto do falecido intocado por meses, como se ele estivesse para chegar a qualquer momento".
Fernanda defende que "é natural chorar, ficar triste, pois ter dificuldade em lidar com a morte é uma qualidade humana". Para ela, essa vivência "não dá para ser leve, mas dá para ser por inteiro". A tanatóloga adverte que os indivíduos têm dificuldade em expressar suas emoções. E sobre a vasta gama de serviços à disposição, acredita que o uso exagerado de tecnologias de suporte vai desumanizando o processo. "Como não tenho tempo para cuidar, pago para alguém fazer isso por mim". Neste contexto, a questão financeira pode ser "uma tentativa de amenizar culpas".
Ela identifica os processos inerentes à finitude: "Negação, raiva, barganha, depressão, aceitação e esperança". E alerta que não lidar com esses temas pode resultar em consequências diversas, como somatização, insônia, cefaleia e algumas visitas ao divã.
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