terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Quando a escuta clínica é permeada pelo desejo do psicólogo

O campo da psicologia hospitalar é um lugar do qual as limitações e frustrações norteiam a atuação do profissional “psi”, indo em contra partida, na grande maioria das vezes com a necessidade da população que necessita de expectativas e boas novas para enfrentar as nuances que o processo de adoecer e internação impõe.

Entretanto em sua maioria nós profissionais, em constante formação, também necessitamos de boas novas, talvez na tentativa de abrandar nossas ânsias e vontades das quais fomos preparados e doutrinados aos cinco anos de graduação.

Ao deparar com a fragilidade humana e com a condição finita do ser humano, temos uma tendência natural de reparar a dor alheia, na tentativa talvez, de sermos também reparados, quem sabe por uma lei maior, que podemos chamar de Deus, Sagrado ou até porque não inconsciente.

Nas supervisões que realizo com os alunos de curso de aperfeiçoamento e extensão em psicologia hospitalar, não é raro deparar com a necessidade e vontade desses em vivenciar a completude de um atendimento, ou seja, a realização e satisfação de uma excelência nesses atendimentos.

Recordo em diversas falas desses alunos ao saírem a primeira vez do leito, que o atendimento foi acolhedor e que não foi diagnosticado nenhuma demanda para atendimento do serviço, o paciente se encontra adaptado as rotinas e normas da instituição, bem como apresenta consciência de seu estado clínico.

Nesses encontros questiono as necessidades e resistências do humano psicólogo,não se deparar com a angústia do humano paciente.

Em uma dessas intervenções um dos alunos ao final do atendimento sai feliz e realizado ao termino da sessão, referindo que a paciente agradeceu e gostou muito da conversa realizada.

Mas como o que está reprimido necessita voltar a superfície, a equipe após dois dias solicita uma re-avaliação do serviço de psicologia, com a queixa que a mesma está muito chorosa. Nessa triagem a paciente recorda do atendimento anterior, refere-se a aluna de forma muito carinhosa e gentil, mas relata estar muito triste e angustiada. Ao ser disponibilizado a escuta e dentro de um contexto clínico, a mesma expressa suas perdas nos últimos três meses, sendo a morte por longo processo de adoecer de dois filhos, e a morte de sua irmã amada. Sofrimento esse caracterizado como luto, diante da perda de entes queridos ainda em tempo recente, mas a paciente associa também seu quadro de tristeza a morte de outro filho há três anos por depressão, seguido por suicídio.

Para minha surpresa ao segundo atendimento, a paciente refere que após a finalização do atendimento anterior, sentiu necessidade de falar mais, falar aquilo que ela guardava a sete chaves em seu coração, falou das diversas perdas ao longo de sua história, perdas de outros filhos em tenra idade, da morte dos pais, mas abriu seu coração para falar da magoa de uma de suas irmãs que por durante longos anos foi amante de seu próprio marido, relação essa que a paciente vivenciou dentro de seu contexto domiciliar.

Atualmente se faz mais de 30 anos que o marido faleceu, a irmã há mais de 10 anos, mas foi nesse atendimento que a paciente pode pegar umas das chaves e abrir seu coração, é claro que há necessidade para falar já estava posta, talvez o processo de adoecer pautou a configuração desse setting clínico, mas a escuta disponível para além da fala primeira “está tudo bem! Sou forte, vou passar por mais essa, internação...” também constituiu esse descobrir o que estava até então velado.

Acredito que a experiência auxilia nesse momento, mas acredito também que o conhecer sim é infinito, e em nossa atuação o conhecer atravessa nossa compreensão da teoria e da técnica e vai de encontro com o conhecimento que o paciente nos oferece, é ele e somente ele que sabe da sua dor, sabe de suas inquietações, e somente ele tem a sabedoria para trazer a tona seu sofrimento.

A nós cabe (a)preender como aprendizes o conhecimento que nós é passado nesses atendimentos, lembrando que o mestre da vez está no palco da vida, no leito de um hospital, dizendo através de seu corpo seus medos e anseios diante de sua condição de ser finito.

Fernanda Rezende, Dezembro de 2010

Para aluna Mayara

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A morte é sinônimo de saudades...